quarta-feira, 26 de março de 2014

O primeiro dia

O meu nome não é Sophia mas neste momento procuro a sabedoria necessária para saber viver (ou sobreviver?) sem ti. Preciso de tirar a dor que tenho dentro de mim, toda a desilusão, todo o aperto que sinto no peito. Por isso criei o Coração sem Imagens. Porque talvez um dia seja feliz.


Coração sem Imagens

Deito fora as imagens.
Sem ti, para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em qualquer parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raúl de Carvalho

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